Este site é um ponto de intersecção de um grupo de jornalistas ao redor do planeta interessados em saber o que, de fato, é a Igreja Universal do Reino de Deus.

A instituição nasceu no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. Em apenas 40 anos, cresceu exponencialmente, atravessou fronteiras, cruzou oceanos e continentes. Espalhou-se pelo mundo como uma anêmona que se nutre da população mais vulnerável, com menor nível de instrução e renda.

A trajetória de sucesso da IURD é pontilhada por um  sucessão de problemas. Escândalos financeiros, denúncias de charlatanismo, a espetacularização da ganância. Sacos de dinheiro, vilipêndio de imagens, festins faustosos que debochavam da opinião pública. A despeito disso, a igreja chegou onde está hoje.

Tem 9 milhões de fiéis, está em 105 países, tem tanto dinheiro que pode se dar ao luxo de construir o maior templo urbano do mundo no coração da cidade de São Paulo.

Em dezembro passado, duas repórteres da TVI, a maior rede de televisão de Portugal, descobriram que a cúpula da Universal havia transformado uma  casa de acolhimento de menores nos arredores de Lisboa num repositório clandestino de crianças para adoção.

Alexandra Borges e Judite França, as duas repórteres obstinadas e corajosas, passaram sete meses apurando uma história que, de tão cruenta e desumana, parecia inverossímil. Depois de obtidos de analisados mais de mil documentos e de dezenas de testemunhos colhidos, a  verdade sobre o que aconteceu em Camarate pode finalmente ser desvendada — e todos os elementos apontam para uma série de procedimentos ilegais.

Enquanto se estabelecia em terras lusitanas, a seita se valeu da fragilidade de mulheres viciadas em heroína, prostitutas, vítimas de violência doméstica para roubar-lhes os filhos. Crianças que eram levadas ao lar da Universal em Camarate por essas mães em desespero, por parentes desvalidos ou pela assistência social desapareciam no ar.

Tudo isso como forma de mitigar as consequências de um dos cânones do grande  teólogo da IURD. No fim dos anos 80, o bispo proibiu seus pastores de terem filhos. Mandou vasectomizar todo o clero. Jovens com menos de 20 anos de idade foram privados do direito à paternidade. Entre os que foram esterilizados, dois que viriam, logo depois, a casar com as filhas do próprio Edir Macedo.

As duas descendentes do chefe supremo da Universal não podiam  engravidar. E se as sucessoras do papa da IURD  não podiam ter filhos, ninguém teria.

Mas as filhas do dono da IURD queriam ter filhos. Ele tratou de atendê-las.

Edir Macedo se valeu da casa de Camarate para obter crianças “perfeitas”  para satisfazer o instinto maternal de suas herdeira.

A caçula, Viviane, decidiu ficar com dois de três irmãos que estavam abrigados na casa. Mas não se interessou pelo caçula.

A filha mais velha optou pelo primogênito de uma outra dupla de irmãos e,  da mesma forma, não hesitou em separar para sempre os irmãos. Um dos dois não era perfeito, pois tinha uma mancha escura e peluda num dos braços.

As crianças enjeitadas foram destinadas a quadros da cúpula da IURD. De acordo com o relato de testemunhas dos fatos, as adoções foram compulsórias — ordens diretas do sumo sacerdote da IURD.

Ninguém sabe quantas crianças foram adotadas ilegalmente. Ninguém sabe como a casa da IURD, que funcionou clandestinamente entre 1994 e 2002 *, jamais foi molestada pelo Ministério Público ou  pela Assistência social (…)

Esclarecer como se deu a adoção das crianças do lar de Camarate é a missão que se impõe este consórcio de jornalistas. Nossa tarefa é reconstituir o que houve e revelar os efeitos dos estratagemas montados para que esse esquema pudesse funcionar.