Mulher de “cardeal” da IURD denunciou fraude na adoção de crianças em Portugal Mulher de “cardeal” da IURD denunciou fraude na adoção de crianças em Portugal
Por Fábio Pannunzio e Bruna Pannunzio, no Blog do Pannunzio “A Confiança judicial concedida à senhora Maria Alice Andrade foi concedida baseado em dados... Mulher de “cardeal” da IURD denunciou fraude na adoção de crianças em Portugal

Por Fábio Pannunzio e Bruna Pannunzio, no Blog do Pannunzio

“A Confiança judicial concedida à senhora Maria Alice Andrade foi concedida baseado em dados mentirosos, por isso se comprovado como estou a delatar, não deve ser considerada e sim revogada”.

Márcia Panceiro, mulher do bispo Romualdo Panceiro, em carta-denúncia ao Judiciário Português

Não foi um policial, um promotor, um jornalista investigativo. A primeira pessoa a informar o Poder judiciário das fraudes nas adoções feitas pelos cardeais da IURD em Portugal foi Márcia Panceiro, esposa do bispo Romualdo Panceiro, braço-direito de Edir Macedo e coordenador dos negócios da Igreja Universal do Reino de Deus na Europa.

Em uma carta enviada ao judiciário português há 15 anos, ela afirmou que a confiança judicial concedida à mulher que se apresentara como guardiã da criança portuguesa que lhe havia sido entregue cinco anos antes foi obtida com base em dados mentirosos, e deveria ser anulada. A criança em questão era o menino Fábio Miguel Tavares Vieira, o caçula de três irmãos que foram retirados  da mãe pela segurança social portuguesa.

A mãe era a provedora da casa.  Os filhos ficavam sozinhos  enquanto ela trabalhava. Essa situação gerou uma denúncia à Segurança Social. As crianças foram entregues a um lar que a IURD mantinha em Camarate, Lisboa, até que a mãe conseguisse encontrar uma forma de deixá-los acompanhados enquanto trabalhava. Na época, segundo a série de reportagens O Segredo dos Deuses, da TVI de Portugal, o Lar de Camarate funcionava clandestinamente, situação que perdurou por ao menos sete anos.

Os três irmãos foram retirados da casa de amparo da IURD sem autorização da mãe quando Alice Andrade, funcionária de confiança do bispo Edir Macedo, conseguiu a guarda e também uma autorização para viajar com elas para fora do País. Ela se apresentou como candidata a adotar os três  irmãos. Mas na verdade, estava apenas servindo como uma espécie de ´barriga adotiva de aluguel´ para uma das filhas do bispo Edir Macedo, Viviane Freitas.

Foi o próprio bispo Macedo quem sugeriu à filha mais nova adotar aquelas crianças. Como Viviane não tinha residência em Portugal, nem idade para se habilitar ao processo, o bispo usou sua funcionária como testa-de-fero da filha. Alice Andrade era secretária pessoal de Edir Macedo na Europa. Ela se apresentaria à Justiça de Portugal como parte interessada na adoção das crianças e as entregaria imediatamente à família do dono da IURD.

Mas Viviane só se interessou pelos dois mais velhos. Por isso, o caçula foi destinado ao bispo Romualdo Panceiro e a Dona Márcia Panceiro, que acabam se afeiçoando a ele, embora o vínculo formal entre o casal e o menino fosse nulo.

Eu havia tentado adotá-lo e como não consegui, pois na altura não tinha documentos portugueses a Alice ofereceu-se para adotá-lo em seu nome e depois entregaria para mim o menino”, afirmou Márcia Panceiro ao juizado de Menores de Lisboa.

Alice eventualmente era encarregada de reunir os irmãos e levá-los a Portugal para se apresentarem nas audiências do processo de adoção. Nessas ocasiões, eles passavam alguns dias com ela para que pudessem ensaiar os depoimentos com o objetivo de mentir aos assistentes sociais. “A assistente social entrevistou-os  e eles haviam sido treinados pela Alice para mentir, dizendo que viviam com ela”, denunciou a mulher do bispo Romualdo Panceiro.

A relação entre a mãe adotiva de aluguel e Márcia Panceiro foi se deteriorando ao longo do tempo. Passados três anos, a filha de Edir Macedo desistiu da tentativa de ser mãe dos irmãos de Fábio. As crianças davam trabalho e a relação dela com o marido Júlio Freitas estava sendo afetada. Viviane Freitas quis então  devolver as crianças ao lar da IURD.

Ao mesmo tempo, deterioravam-se as relações entre os Macedo Bezerra e a mãe-laranja. Fontes próximas a eles dizem que Alice, irritada com a perspectiva de ter que passar a cuidar de filhos adotivos que não desejava, passou a chantagear o bispo. “O único interesse dela com essas crianças hoje é motivo financeiro”, escreveu Márcia Panceiro na carta ao juiz de menores lisboeta.

Márcia não se conformou em ter que devolver a criança que aprendera a amar. Desesperados, ela e o marido  tentaram falsificar um registro de nascimento para dar a Fábio (que àquela altura já era formalmente filho adotivo de Alice Andrade) uma nova identidade brasileira. A fraude foi perpetrada no cartório do Registro Civil de Biritiba-Mirim, na Grande São Paulo.

Passados três anos após sua chegada ao Brasil, Fábio foi definitivamente apartado dos Panceiro pela ex-secretária de Edir Macedo. Retornou apenas alguns meses antes de morrer de overdose num hotel de Nova York aos 18 anos de idade. Um desfecho triste para a história de uma criança que chegou a ter três identidades diferentes, foi três vezes rejeitada e teve que crescer sem poder sequer conviver com os irmãos.

A carta de Márcia Panceiro não gerou nenhuma investigação por parte do Juizado de Menores. Ela não diz respeito apenas ao caso do filho de Márcia e Romualdo. Os netos do próprio Edir Macedo foram ‘adotados’ no bojo do mesmo processo mentiroso, com o mesmo conjunto de fraudes. Apesar disso, as autoridades portuguesas jamais se interessaram em esclarecer o que se passou com as crianças que os dois bispo da IURD pretendiam ter como netos e filho.

A íntegra da carta, um documento pungente e dolorido, foi localizada em um dos processos cujo conteúdo pôde ser acessados por Alexandra Borges e Judite França, as autoras da série O Segredo dos Deuses. Ela está disponível para leitura logo abaixo. Um fac-símile do original também anexado a este post.

A íntegra da carta-denúncia de Márcia Panceiro

São Paulo, 30 de novembro  de 2003

Exmo. juiz de menores,

Eu, Márcia Panceiro Barbosa, brasileira, casada, portadora da identidade no. 07152940-8, residente em São Paulo, Brasil, venho por meio desta relatar um fato muito grave, referente ao processo de adoção do 2o juízo, 3a seção de segurança No 322/2001.

Este processo refere-se a adoção de três menores pela Sra. Maria Alice Andrade.

Um destes menores, Fábio Miguel Tavares Vieira, foi-me entregue no Brasil, no dia 8 de abril de 1997, para ser meu filho.

Quando Alice iniciou o processo para adotá-lo, ela já havia comprometido em dar-me o menino. Eu havia tentado adotá-lo e como não consegui, pois na altura não tinha documentos portugueses a Alice ofereceu-se para adotá-lo em seu nome e depois entregaria para mim o menino, como foi feito na data acima.

Reconheço ter sido ingênua, pois trata-se de coisa muito séria, mas pensei no bem que poderia fazer a criança e não me preocupei com documentos.

O meu filho passou a viver comigo e meu marido em Brasil e nós o amamos sempre e demos muito carinho.

Ele passou a ser nosso filho, assim como o considero, mesmo estando longe.

Em janeiro do ano de 1998, Alice disse que precisava ir a Portugal com o menino, juntamente com os seus irmãos  (Vera e Luís) para apresentar-se a assistente social. Assim compareceram em Portugal e em seguida o menino voltou para a nossa companhia em Brasil.

A assistente social entrevistou-os  e eles haviam sido treinados pela Alice para mentir, dizendo que viviam com ela.

Passou-se (SIC) mais dois anos . E abril dos anos de 2000 novamente ela disse que o menino precisava juntar-se aos irmãos porque mais uma vez precisavam voltar a Portugal , desta vez penso que diante do juiz.

Então, no dia 17 de abril do ano de 2000 levei o meu filho aos Estados Unidos onde Alice mora para juntar-se aos seus irmãos.

A Alice me pediu para que levasse uns 10 dias antes para poder treiná-los para o que dizer diante do juiz.

Eu o entreguei a ela no Aeroporto de Los Angeles, onde esperava juntamente com o seu marido, Vera e Luís.

A audiência seria no dia 26 de abril de 2000. Houve a audiência e o combinado seria que meu filho voltaria direto ao Brasil, para nossa casa, mas isto não aconteceu.

A Alice nos ligou dizendo que haviam feito uma denúncia que o menino morava em Brasil e que por isso não podiam deixa-lo voltar até que a adoção estivesse completamente resolvida.

Eu e meu esposo ficamos muito tristes, mas nada podíamos fazer, pois ela tinha a guarda do menino. Ela combinou que nós poderíamos visitar o menino, mas que ele só voltaria quando o processo terminasse.

Ele já havia vivido 3 anos conosco e foi muito difícil poder vê-lo apenas 1 semana de cada mês, quando ia visitá-lo.

Durante 1 ano e três meses ia todo mês aos Estados Unidos passar uma semana com ele e telefonava todos os dias aqui de Brasil. Eram dias dolorosos, pois meu filho sofria muito. Ele nunca quis estar na casa da Alice.

Alice passou a ensiná-lo a chama-la de mãe e seu marido de pai.

Dizia que tinha que ser assim, pois as crianças passariam por nova entrevista.

Eu comecei a achar muitas coisas estranho (SIC), inclusive não queria que eu falasse mais em português com meu filho, dizendo que era diferente do sotaque de Portugal e na entrevista iriam descobrir tudo.

Hoje meu filho já não fala mais português, somente inglês.  Ela o treinou assim. Não falar português.

Depois de 1 ano e 3 meses (em julho de 2001) a Alice disse que era melhor eu ficar sem falar com o menino por telefone e também não visita-lo até dezembro, pois haveria a última entrevista e o menino precisava desligar-se um pouco de mim e se apegar-se (SIC) mais a ela, para que tudo desse certo.

Em julho de 2001 saiu a confiança judicial e entrou-se com o processo de adoção. Esperei 6 meses sem falar sequer com meu filho, pois ela não deixava.

Dezembro chegou e ela não fez o pedido para a visita da assistência social. Dependia dela para chamar. Agora ela disse que dependia dela e só  chamaria quando quisesse.

Estava fazendo isso para ganhar tempo, pois não tinha interesse em devolver meu filho.

Então telefonei para o meu filho e muito contra a vontade a Alice deixou eu falar com ele (muito rápido). Combinei com ele que na semana seguinte iria visitá-lo e ele ficou muito feliz.

Ela não deixou eu ir e nem se quer pude explicar ao meu filho que não iria mais. Foi a última vez que falei com o meu filho (dezembro de 2001). Em julho de 2001 foi a última vez que o vi.

A partir daí notei que algo ia mal no comportamento da Alice. Negava-se a chamar a assistente social e dizia que era porque todas as crianças dormiam em um quarto e não podia chamar a assistente social nesta situação.

Enfim, durante todo o ano de 2002 ficou dando desculpa para não mandar o processo adiante.

Hoje sei que era para ganhar tempo, pois não pretendia mais devolver o menino.

Não sei em que altura teve a visita da assistente social e nós ligamos para dizer-lhe que nos mandasse o menino ou deixasse-nos ao menos vê-lo e dedicar-lhe tudo.  Ela disse então que não devolveria a criança . Que a assistente social havia visto as crianças na escola  e não chegou a ir até a casa dela.

Enfim, nesta mesma época da visita da assistente social Alice ficou desempregada e hoje usa estas crianças para tentar ganhar dinheiro (Perguntem a ela como).

O único interesse dela com essas crianças hoje é motivo financeiro.

Por várias vezes nos dizia que estas crianças são um estorvo em sua vida. Que podia estar em Hawaii com seu marido e tem estas crianças atrapalhando.

Várias vezes eu e meu esposo ligamos para ela e nos trata mal. Passamos e-mail e raramente nos responde e quando responde diz que não vai nos deixar ver o menino.

A filha Tatiana é quem mais cuida dessas crianças. E ela ama as crianças. A Alice só os tem com ela por interesse.

Escrevi um e-mail para ela dizendo que contaria toda a verdade em Portugal e ela não se importou. Acho que pensa que não vai dar em nada. Falamos com ela que quando o menino soubesse toda a verdade, ele ficaria triste com ela.

Ele pensa que não vem embora porque os papéis ainda não saíram (Eu acho). Ela disse que não se importava conosco e nem com o que o menino pensaria, que quando crescesse fizesse da vida dele o que quisesse, mas agora seria assim e não o deixaria voltar.

Eu tento falar com o meu filho na escola e a diretora não deixa, dizendo que a Alice deixou ordens para que eu não fale com ele. Disse que se eu aparecer vai chamar a polícia. Não sei que história Alice contou para ela.

Aliás, a Alice mente muito bem, pois até conseguiu enganar a todos. Até chora, quando mente.

Eu esperei muito para ver se ela mudava de ideia e me devolvia o filho, mas como disse, ela tem outros interesses para estar com estas crianças.

Como ela não muda de ideia, então depois de avisa-los para o Tribunal eu telefonei para o Tribunal e fui orientada por uma funcionaria ( não anotei o nome) que enviasse tudo que estava falando por escrito; e é o que estou a fazer.  Não sei se vos importa, mas sofri muito e sofro com tudo isto. E meu filho sofreu muito também. É muita coisa para uma criança: Ser abandonado pelos pais e depois ter uma família que o ama tanto (eu sei que ele também nos amava muito) e depois arrancado assim de sua família.

Bem, são muitas coisas que tenho por dizer, mas gostaria de falar pessoalmente.

Eu queria ter o meu filho de volta. Eu e o seu pai o amamos. Ele para mim sempre será o meu filho querido.  Eu o amei desde que chegou e o amo. Eu não tenho filhos da minha barriga, mas se os tivesse acho que não amaria mais do que amo o meu “filhote” como o chamava.

O meu coração dói. Não tem um dia que eu não pense no meu filho. Queria ter a oportunidade de estar com ele e saber se ele quer voltar para casa. Eu tenho certeza que sim.

A Alice deve ter treinado ele para não querer mais ficar conosco, mas isto não funciona.

Saberei, e qualquer pessoa também discernir se está falando a verdade.  O amor não tem como se esconder . Eu penso às vezes em ir aos Estados Unidos encontrá-lo na escola e não me importo se vão chamar a polícia ou não.

Eu só não vou porque sei que não posso trazê-lo  e ele vai sofrer quando me ver e mais uma vez não poder vir para casa.

Não tenho o direito de entristece-lo mais .

Quero pedir que, por favor, julguem a minha causa.

Deus é quem julga todas as coisas, mas ele delegou homens aqui na Terra para julgarem as nossas causas também.

É muito injusto eu e meu filhos querer-mos  estarmos juntos e por interesses de terceiros isto não ser possível.

Eu troquei fraldas do meu bebê, cuidei e o amo … Para mim eu sou e sempre serei a sua mãe. Esperarei sempre a volta dele, porque Deus é fiel e justo.

Mando algumas fotos nossas e tenho muitas mais. Aqui em Brasil tem testemunhas de tudo que estou dizendo é verdade. Em Portugal também. E em Estados Unidos também.

Qualquer esclarecimento eu moro: Rua Missionários no.139 7o. Andar

São Paulo Brasil cep 04729000

Telefone (11) 5644 8840

A Confiança judicial concedida a senhora Maria Alice Andrade foi concedida baseado em dados mentirosos, por isso se comprovado como estou a delatar, não deve ser considerada e sim revogada.

Por favor, vejam qual é a vontade do menino. Com quem ele deseja ficar . Ele também sempre concordou em mentir e foi treinado para isso, porque sabia que precisava que tudo saísse bem para que pudesse voltar para sua mãe, que sou eu, e para o Brasil.

Todos os nossos amigos e professores dele também esperam a volta dele.

No próximo 15 de dezembro meu filho vai fazer 9 anos. Ele saiu de Brasil com 5 anos e faz 2 anos e meio que nem se quer posso vê-lo.

Por favor, me ajudem a ter o meu “filho” de volta. Queria muito que ele estivesse “aqui” no aniversário dele.

Obrigada

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Fabio Pannunzio

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