IURD ameaça, exige retratação mas não explica adoções em Portugal IURD ameaça, exige retratação mas não explica adoções em Portugal
Por Fábio Pannunzio, no Blog do Pannunzio Enredada em uma denúncia bombástica de tráfico internacional de crianças, a Igreja universal do Reino de Deus... IURD ameaça, exige retratação mas não explica adoções em Portugal

Por Fábio Pannunzio, no Blog do Pannunzio

Enredada em uma denúncia bombástica de tráfico internacional de crianças, a Igreja universal do Reino de Deus tenta na justiça constranger e censurar jornalistas, exige ser ouvida, mas se recusa a explicar o esquema de adoções ilegais objeto de uma extensa série de reportagens da rede de televisão portuguesa TVI.

A série O Segredo dos Deuses foi veiculada em dezembro de 2017. Eu a compartilhei no meu perfil do Facebook e recomendei que todos a assistissem. Fiquei estarrecido com o conteúdo e impressionado com a forma adotada por minhas colegas Alexandra Borges e Judite França, as repórteres que a produziram. Alguns dias depois, a Igreja Universal do Reino de Deus enviou-me duas notificações extrajudiciais — uma em  nome da igreja, outra em nome do  bispo Edir Macedo ameaçando com processos e exigindo retratação. Uma das críticas foi a de que não ouvi o outro lado — um despropósito completo, uma vez que não fui eu quem a produziu e, como parece óbvio, não poderia ter nenhuma responsabilidade sobre os procedimentos éticos adotados na confecção das reportagens.

Respondi publicamente que não aceitaria a imposição, não faria nenhum tipo de retratação, mas decidi aceitar como sugestão a exigência de ouvir o outro lado. Enviei à assessoria de imprensa da IURD um questionário com 57 perguntas. Depois, complementei a demanda com outras 8 indagações. E depois seguiram outras tantas.

Fiquei surpreso  ao receber como resposta apenas um e-mail rancoroso recheado de críticas, certamente da lavra de algum obreiro, tamanho o engajamento aparente com a “causa” representada pela pelo desagravo às minhas supostas ofensas. Ou seja: a instituição que se apresenta tão zelosa de sua imagem, tão exigente quantos às manifestações de jornalistas que escrevem a seu respeito — e até dos que não escrevem — , se recusa a apresentar argumentos capazes de refutar as imputações feitas na série, produto de sete meses de apuração das duas jornalistas lisboetas.

Com este post, inicia-se a minha apuração. A partir daqui, toda a responsabilidade pelo que for apurado e publicado com a minha assinatura é minha. Todas as informações publicadas foram levantadas ou checadas por mim e por minha filha Bruna, jornalista recém-formada que vai me auxiliar nesse trabalho. Começo contando a história escavada por Alexandra e Judite. História que, até o momento, tem sido confirmada em todas as checagens que eu e Bruna temos empreendido.

A história

Os problemas da IURD, de acordo  com as reportagens, começaram em meados dos anos 90. Foi quando as filhas do sumo-sacerdote, recém-casadas, decidiram ter filhos, algo vedado aos demais pastores contratados pela seita. O próprio Edir Macedo sempre orientou seus funcionários – e as filhas – a evitar  filhos. Há diversas manifestações públicas dele nesse sentido.

Na justiça brasileira, há ao menos uma dezena de processos já transitados em julgado ou ainda em andamento em que a IURD foi condenada a indenizar pastores por tê-los obrigado a fazer a esterilização.  A IURD nega, ainda que admita que recomenda aos funcionários que se abstenham de ter filhos. As próprias filhas de Edir Macedo se casaram com bispos vasectomizados, embora a impossibilidade de conceber, segundo fontes da IURD, nesses dois casos seja decorrente de problemas congênitos de Viviane e Cristiane.

O instinto materno das filhas de Macedo começou a falar alto justamente quando sua empresa estava se instalando em Portugal. Coincidência ou não, foi quando a seita decidiu abrir, em Camarate, um lar de acolhimento de crianças. A casa começou a funcionar em 1994, mas só teve seus registros regularizados em 2001, sete anos mais tarde, segundo O Segredo dos Deuses. Nesse meio tempo, Edir Macedo, pelo que relatam suas filhas, ali foi buscar crianças perfeitas para serem seus netos. A casa, nos anos seguintes, se transformaria num repositório de crianças a serem adotadas pela cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus.

A filha mais nova de Edir Macedo, Viviane Freitas, conta em seu blog que o próprio pai lhe entregou as fotografias de Fábio, Vera e Luis. Eram crianças lindas, filhos de uma família paupérrima, retiradas temporariamente da mãe pela Assistência Social  para que ela pudesse reorganizar sua vida. A acusação contra ela era a de que deixava os filhos sozinhos em casa enquanto trabalhava.

Viviane gostou dos dois irmãos mais velhos, Luis e Vera, porque estes se pareciam fisicamente com o bispo Júlio Freitas, segundo relato da própria em seu blog. O mais novo, Fábio, foi rejeitado — ainda que a lei portuguesa impedisse a separação da família . Mas havia outros problemas. Ela e o marido Júlio não preenchiam o requisito legal de idade mínima para adoção. A legislação portuguesa da época estabelecia que a soma da idade dos casal candidato a adotar uma criança deveria ser 50. Viviane e Júlio eram jovens demais e não preenchiam o requisito.

Havia outro entrave ainda mais grave. AS crianças foram deixadas lá temporariamente,  não para serem adotados. E, mais complicado ainda, Viviane e Júlio não residiam em Portugal, o que tornava a adoção virtualmente impossível. Mas o desejo do clã da Universal precisava ser atendido. O jeito foi improvisar uma saída que permitisse aos Macedo passar por cima de todos os impedimentos, sublimar o propósito da mãe boiológica e mandar às favas a lei de Portugal.

Uma laranja adotiva

Uma das funcionárias mais próximas de Edir Macedo à época, sua secretária pessoal Maria Alice Ferreira de Andrade Katz, foi destacada para cumprir o papel de laranja da família nos processos junto ao tribunal português. Foi ela quem se apresentou à Justiça de como candidata à adoção dos três menores em processos que, segundo O Segredo dos Deuses, estão eivados de fraudes e falsificações.  Ao conseguir a guarda das crianças, Alice as embarcou no jatinho do líder da Universal.

O avião decolou de Lisboa e, segundo o relato de Alice, fez uma primeira escala no Rio de Janeiro, onde se consumou a separação dos irmãos. O pequeno Fábio, com apenas 18 meses de idade, foi entregue à esposa do bispo Romualdo Panceiro, Márcia. Os dois outros seguiram o traslado em direção à Costa Oeste dos Estados Unidos para serem entregues a Viviane Freitas.

Mas o sonho dourado da adoção foi muito mal-sucedido. Ao final do terceiro ano, segundo testemunhas ouvidas pela TVI, a relação do casal estava desgastada pelo trabalho que as crianças davam. A baby-sitter responsável por elas relatou à TVI que houve casos seguidos de agressão.

Não se sabe ao certo que razões que levaram a filha do bispo Macedo a decidir pela devolução das crianças. O problema é que, para que isso ocorresse, era necessário obrigar Romualdo e Márcia a se livrarem de Fábio, a quem já haviam se afeiçoado.  O casal Panceiro terminou se resignando após uma ordem pessoal do bispo Edir Macedo e permitiu que o pequeno Fábio fosse levado para os Estados Unidos, onde a mãe-laranja vivia.

Apartar-se de Fábio não deve ter sido fácil. Ainda que buscando se esquivar da verdade fática, o bispo Romualdo, em entrevista aos veículos da própria IURD, se referiu a esse momento como um dos mais difíceis de sua vida. “Quando tinha 6 anos, a Justiça de lá determinou que ele deveria voltar para a antiga responsável por ele”, tergiversa Panceiro, que jamais foi formalmente o pai adotivo de Fábio.

Leal como um cão-de-fila ao chefão da IURD, ele nunca responsabilizou Edir Macedo ou sua filha Viviane por nada. Para justificar o afastamento compulsório, o bispo jogou a culpa em Maria Alice, a mãe de aluguel contratada por seu chefe . “A mãe que pegou a guarda dele dos 6 até 19 anos trabalhou a cabeça dele contra a gente, dizendo que nós é que não queríamos ficar com ele. Ela mudou de casa e perdemos o contato com ele”, sintetizou o religioso.

A curta permanência dessa criança com a família Panceiro gerou uma série de movimentos e deixou um rastro de problemas com os quais o bispo ainda terá que se avir por muito. O desfecho de Fábio, muitas vezes abandonado ao longo de sua infância tumultuada, foi trágico. Ele morreria de overdose em 2015, aos 20 anos, solitário, num quarto de hotel de Nova York. O bispo Panceiro, que todos os dias alardeia em seus cultos milagres e testemunhos de cura de viciados por sua denominação, não conseguiu convencer os céus a salvarem o próprio “filho”.

Aqui no Brasil, a rápida passagem de Fábio em criança produziu ao menos um registro de nascimento falso. Mas isso será abordado na próxima reportagem desta série. Ela vai mostrar que a personalidade jurídica dessa criança permanece viva como um fantasma a assombrar os Paceiro, a cúpula e os advogados da IURD.

Outra filha, outros netos, mesmos problemas

Cristiane Cardoso, a filha mais velha de Edir Macedo, também foi aconselhada pelo pai a adotar uma das crianças que o lar da universal, já funcionando em um novo endereço, abrigava. Em seu blog, Cristiane Cardoso relata que “ em janeiro” (supostamente de 1997) seu pai telefonou para ela com o objetivo de falar sobre uma criança séria e calada, que “parecia um soldadinho”, referindo-se a Felipe, para recomendar a adoção.

Os dois irmãos eram típicos “bebês Cerelac”, o equivalente português para “bebê Johnson” no Brasil. Brancos, olhos claros, prontos para estrear um comercial na rede de televisão do futuro avô. Mas Pedro não era perfeito. Tinha uma mancha de nascença escura e peluda no braço esquerdo. Acabou sendo rejeitado pela futura mãe adotiva.

Ao contrário do que ocorreu com Viviane, Cristiane, a mais velha, se apresentou ela mesma como candidata à adoção. O processo tramitou em tempo recorde. Dois meses depois, já havia conseguido a guarda do menino e uma autorização de viagem para levá-lo para Londres, onde vivia. O irmão enjeitado ficou em Lisboa e terminou por ser adotado pela então diretora do Lar de Camarate, Jaqueline Duran Marques, a esposa do bispo Sidney. Ele era um dos cardeais do bispo Macedo, o segundo na hierarquia da Universal naquele momento da história.

As repórteres da TVI conseguiram localizar a mãe biológica dessas duas crianças. O relato dela à série O Segredo dos Deuses é cortante. A mulher revelou que jamais autorizou o início do processo de adoção. Quem as entregou ao lar da IURD foi a avó materna. A mãe, vítima de violência doméstica, precisou se refugiar do antigo companheiro, livrar-se das drogas e dos vínculos de escravidão que a mantinham cativa — literalmente! — na casa onde vivia com os filhos.

Ela contou que ficava amarrada a uma cadeira, e que só conseguiu fugir porque seu filho Pedro logrou desatar os nós da corda. Ela e os filhos teriam pulado a janela e se escondido na casa dos pais. Depois, teve que se manter escondida durante algum tempo temendo o pior. Ao retornar, sua mãe, fanática religiosa da Igreja Universal, relatou ter levado as crianças ao  abrigo da IURD.

Não se sabe como foi obtida a autorização prévia necessária para iniciar os procedimentos de adoção. Alguém surrupiou sua carteira de identidade e se apresentou perante um juiz como se fosse a própria filha. Foi assim que Filipe, segundo a versão de sua mãe biológica, foi parar no seio da família Macedo e Pedro virou filho adotivo de Sidney e Jaqueline.

Além dessas cinco, ao menos outras quatro crianças teriam sido abduzidas de forma semelhante na casa de amparo da IURD. Duas delas foram localizadas em poder de famílias de outros clérigos da Universal. Não se sabe quantas terão o mesmo destino.

Esta é a história contada pelas repórter da TVI. A investigação durou sete meses e envolveu ao menos 30 pessoas. Foram tomados depoimentos de dezenas de testemunhas da época. Mães, religiosos que se desligaram da IURD, autoridades portuguesas, parentes das crianças. Todos os depoimentos caminham na mesma direção — apontam para a responsabilidade deliberada da cúpula da IURD e do próprio Edir Macedo.

Faltava, no entanto, ouvir a IURD. Alexandra e Judite têm em seu arquivo pessoal dezenas de e-mail que deixam claro o denodo com que tentaramcumprir seu dever ético. Mas o bispo e sua igreja se fizeram de mudos. Não prestaram as informações solicitadas.

Como eu entrei no assunto

Quando as reportagens foram ao ar, as jornalistas passaram a ser acusadas de descumprir seu dever ético. As razões não divergem dos argumentos que a Universal costuma usar sempre que está acuada: preconceito religioso, uma cruzada de anticristos, um articulação do demônio. Mas nada disso responde ao que de fato importa, que é saber como se deram essas adoções e qual a responsabilidade de cada um dos protagonistas dessas histórias tão tristes.

Foi com esse propósito que eu, na condição de editor do Blog do Pannunzio, procurei a assessoria de imprensa da IURD logo após ter sido notificado de que seria processado. O primeiro contato por e-mail aconteceu no dia 24 de janeiro. No dia seguinte, recebi uma bem-educada resposta protocolar e enviei logo as primeiras 57 perguntas.

Elas estão reproduzidas aqui. Decidi que iria publicar o questionário depois de receber a última correspondência da IURD, na qual a assessoria de imprensa afirmava que iria publicar os e-mails. As perguntas permanecem sem resposta porque os jornalistas apócrifos que trabalham para o bispo Macedo se recusaram a esclarecer as questões — não informaram sequer o nome da pessoa que tratava comigo em nome da igreja. As ameaças, no entanto, foram reiteradas.

Sigo firme no propósito de ajudar minhas colegas portuguesas a desencavar a verdade, onde quer que ela esteja. Para tanto, aderi ao consórcio internacional de jornalistas criado por sugestão de Alexandra e Judite para investigar o assunto. O consórcio se chama The Universal Truth e criou um site que será o elemento de convergência desta fase da apuração. Se quiser conhecê-lo, basta clicar aqui.

Fabio Pannunzio

  • Lourdes

    24 de February de 2018 #1 Author

    Mas, que GRANDE CORJA!!!!!!!!!

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  • Eli ninck

    03 de March de 2018 #2 Author

    A universal, é uma seita parecida com a cientologia, inclusive passa na tv fechada, as denuncias de uma celebridade que saiu e está denunciando tudo. Usam o nome de Deus para atingir seus objetivos, na mídia, política, religião etc. É uma escravidão total pra quem vive lá, falo isso pq tenho pessoas de casa lá dentro! A sujeira deles é muita, são capazes de qualquer coisa pelo poder! Qualquer coisa!

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