Os políticos, o silêncio,  a vergonha de Portugal Os políticos, o silêncio,  a vergonha de Portugal
Por Judite França Um dia será possível entender por que decidiram, corporativamente, os partidos ficar mudos e sair calados quando o país comenta o... Os políticos, o silêncio,  a vergonha de Portugal

Por Judite França

Um dia será possível entender por que decidiram, corporativamente, os partidos ficar mudos e sair calados quando o país comenta o caso do lar das crianças da IURD.

Um dia será possível compreender por que estão os partidos políticos tão afastados do que pensam os seus militantes, os seus eleitores, os seus concidadãos. E o seu país.

Um dia será possível perceber por que razão os dirigentes partidários julgam que o tema não merece o comentário devido.

Um dia será possível saber porque não querem os partidos tocar no assunto.

Um dia será possível recordar este mês de janeiro de 2018: data que ficará marcada pelo silêncio ensurdecedor dos partidos, com palavras tiradas a ferros. Partidos, dirigentes, ministros, presidentes da assembleia ou da república portuguesa que se recusam a olhar nos olhos estas mães e crianças que tiveram as suas vidas destruídas porque o Estado falhou. Não só falhou; não quer saber sequer que falhou, como falhou, quando falhou e como pode evitar que volte a falhar.

Um dia será possível explicar este silêncio cúmplice de quem não condena o tráfico de crianças, de quem não condena o roubo de meninos portugueses, de quem não se levanta quando o tema é a IURD.

Será um problema de religião? Será a velha máxima de Paula Bobone: não se fala sobre política, religião ou dinheiro à mesa.

Será um problema eleitoral? Julgarão os políticos portugueses que condenar o tráfico de crianças os fará perder eleitores?

Será um problema de consciência? Pensam os políticos portugueses que não se pode mexer na caixa de Pandora? Com receio que a sua abertura espalhe todos os males do mundo?

Será que os políticos portugueses não percebem que a caixa está escancarada? Que todos os males se espalharam já? Que toda a verdade sobre estas adoções não trouxeram já o maior receio ao cidadão português que não crê no sistema judicial e muito menos no sistema de proteção de crianças em risco?

Será que os políticos portugueses estão tão alheados do dia a dia que não percebem que o tema é debatido no café, em casa, no trabalho, no caminho, nos transportes, nos jantares e nos jardins?

Será que os políticos portugueses não sabem de que fibra é feito este país? Não saberão os políticos que os portugueses se unem na dor e se reúnem na batalha?

Será que os políticos portugueses não fazem ideia da mossa que uma notícia como esta faz no Estado? No Estado que garante, protege e promove?

Será que os políticos portugueses não sabem já que os seus compatriotas odeiam a lentidão e a lassidão da justiça?

Será que os políticos portugueses não perceberam já que os seus compatriotas preferem um político acusado de corrução do que um juiz comprovadamente honesto?

Será que os políticos portugueses andam na rua, mas não ouvem? Não vêem? Não entendem? Não percebem? Será que os políticos portugueses percebem qual é o seu dever? Quais são os seus deveres?

Será que os políticos portugueses não percebem que quem vive para o Estado e para o país tem de fazer o juramento de proteger e servir a sua nação?

Será que os políticos portugueses acham que os seus eleitores entendem o silêncio? Este silêncio de quem compactua com a injustiça, o crime, a perversão, a maldade, a ignomínia, a lassidão e a incompetência?

Não.

Porque os portugueses não entendem. Os portugueses não querem só selfies e os afetos não chegam, senhor Presidente. Os portugueses querem mais. Os portugueses pedem mais. E perguntam – em centenas de emails enviados à TVI – por que é que ninguém diz nada?

O que é que respondemos? Que não sabemos? Que não entendemos? Que ninguém pode perceber este silêncio? Que nem nos, nem ninguém nesta redação adota este silêncio – com ou sem “p”? Que tem de ser a sociedade civil a gritar que não adota este silêncio?

Será que os políticos não entendem que estão a milhas e milhas de distância do que os seus eleitores pensam, pedem, querem, desesperam?

Os políticos portugueses precisam de sair à rua, de vez quando. Não para as fotografias dos jornais ou para os perfis que mais parecem o culto do líder, estalinismo-style.

Sair mesmo à rua. Sair e falar com aqueles que servem. Dos quais são serventes públicos. Desses que os elegem e que lhes pagam o salário.

É isso que os políticos portugueses, os deputados, os ministros, os governadores, os presidentes disto e do outro, os funcionários judiciais, os funcionários da segurança social, da Santa Casa da Misericórdia, dos tribunais, do Ministério Público, dos juízes, da Justiça pensam verdadeiramente? Não. Não é.

Então porque estão os políticos portugueses calados, mudos, cúmplices com um caso que qualquer cidadão – do primeiro ao último mundo – julgaria impensável em pleno século XX?

Então porque estão os políticos portugueses calados perante uma rede internacional de adoções ilegais que roubou às mães e pais dezenas de crianças, levando-as impune para o outro lado do mundo?

Então porque estão calados perante uma rede de tráfico que permitiu aos pais adoptantes escolher crianças por fotografias? Escolher esta e não a outra. Roubar, levar, maltratar, devolver…

Não são evidentes as provas que a TVI publicou? Não são evidentes os factos que a TVI apresentou? Não são evidentes os crimes envolvidos nestas práticas demonstradas e repetidas durante pelo menos 6 anos?

Não há onda de indignação no Parlamento. Belém não se emociona. E S.Bento também não. A Justiça também não se indigna ou emociona. Mas investiga.

Investiga em sigilo longe dos olhares de todos. Investiga fechado na sua corporação. Investiga no silêncio da sua corporação, atingida no seu âmago.

Depois admiram-se que estas mães e pais a quem roubaram os filhos e destruíram a vida digam que “a Justiça não faz nada por gente como nós”. Que a “Justiça nada faz pelos pobres”. Que só “os ricos com advogados conseguem ter Justiça”.

É uma vergonha, não é? É. É uma vergonha.

Perguntamos ainda, se me possível: será corporativo? Será mesmo corporativo?

Será que o facto do PS tutelar a Segurança Social à época e o CDS ter estado no ministério depois, quando o processo de averiguações ao lar foi concluído, será que isso faz com que todos se fechem em copas?

Será por isso que o primeiro político a falar desabridamente sobre o assunto tenha sido Pedro Passos Coelho, que, ao contrário dos seus companheiros políticos, não considerou que outros escândalos sejam mais apetitosos do que este?

Será porque o PS se sente comprometido, que dificilmente está disposto a comentar o caso? Será que porque o CDS se sente implicado, não comenta? Será que porque o PCP e o BE estão fechados na geringonça também não se indignam? Será que todos têm telhados de vidro? Será que o nosso país é isto? É. O problema é que o nosso país é isto.

O nosso país transformou-se num covil de silêncios cúmplices e olhares vagos.

Como diria o marido de “Clara” que ficou na rua, frente à entrada lateral do Palácio de Belém, depois de não o deixarem entrar para acompanhar a sua mulher: “A nossa história era um segedo dos Deuses. Agora, ser recebido em Belém também é para ficar no segredo dos Deuses. Não deixem que fique. Não sabemos de que tem vergonha o Presidente. Talvez tenha vergonha de nós. Ou talvez tenha vergonha por estar no cume deste Estado. Seja como for, não se faz: fomos lá para sermos ouvidos; somos ouvidos – achamos nós; e depois querem negar que lá estivemos. Mas estivemos. O Senhor Presidente sabe que lá esteve, sabe que nos recebeu, sabe o que disse. Tinha-nos dado esperança. Agora, já a perdi outra vez”.

“Clara” disse-me uma vez depois do seu requerimento para ter acesso ao processo em que perdeu a guarda dos filhos, sem sequer ter sido ouvida: “A Justiça nunca faz nada por gente como nós”. Talvez tenha sido uma das frases que mais me marcou em toda esta reportagem. Porque diz tudo sobre o que pensam os portugueses sobre a Justiça que os deveria proteger e defender. Que a Justiça não é para pobres.

Como eu tenho saudades dos tempos em que Portugal tinha um estado democrático desengonçado e adolescente; daqueles que crescem tão rápido que não sabe onde colocar os braços. Saudades desses tempos em que a democracia jovem e fresca tinha graça e era feliz.

Houve uma altura em que a democracia era mesmo feliz e fresca e atabalhoada e confusa, mas honesta. Agora está a ficar velha. Em plena crise da meia idade. Triste, desiludida, cínica.

A democracia tornou-se um “vencido da vida”: amarga, senta-se à mesa com um copo de bagaço. E diz mal de tudo e de todos. Mas nunca olha para si. Nunca olha para dentro de si. E não vê que está a apodrecer. 

Judite França

  • Elilda

    07 de February de 2018 #1 Author

    Eu pensei que só no Brasil era assim, mais a IURD compra o silêncio de todos em qualquer lugar! Injustiça!

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